segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sobre aeroporto de mosquito

Elegi suco de laranja servido em caixinhas como uma das piores invenções da história humana, tudo isto enquanto uma comissária de bordo o servia ao careca que estava numa cadeira duas fileiras na frente da minha. Atrevo dizer que isso só perderia para a bomba atômica e a pochete. Então pensei que eu estava salvo da calvície graças à mamãe, porque meu pai já não tinha cabelos aos vinte e oito.

Um pulo involuntário do assento prenunciou a chegada da turbulência, e, logo em seguida, o suco voando diretamente na cara do calvo, além da queda das aeromoças serventes, que agourou a intensidade da mesma.

Atenção senhores passageiros, por favor, afivelem os cintos de segurança. Estamos atravessando uma zona de chuva e turbulência.

Frustrei-me porque nem tive a oportunidade de pedir à morena bonita de fardinha (tentei imagina-lá sem calcinha, quando a vi caída no chão por causa da sacolejada) um refrigerante de guaraná.
Outro solavanco, desta vez bem mais forte. Algumas crianças começaram a chorar. Não sei se os prantos eram piores que a tensão de alguns sussurros que surgiam de cadeiras atrás da minha. Antes do medo, lembrei das aulas de biologia na sétima série, e daquele líquido responsável pelo senso de orientação, que fica dentro do nosso ouvido, no labirinto, ou alguma microestrutura do tipo. Antes do medo, a vertigem. A vertigem precede o medo, e aqueles segundos de pânico acomodavam minha filosofia barata, pensamento solto em momento de terror. Eu não queria pensar que eu não queria morrer, mas já estava pensando.
As máscaras de oxigênio caíram e eu ouvi um barulho, um apito, que não soube distinguir se era do avião ou do meu ouvido.

Minha mãe me salvou da calvície, mas poderia fazer absolutamente nada agora. As chances de a aeromoça morena ser a mulher da minha vida, algum dia, se reduziam a zero a cada minuto. Ao menos o careca não conseguiu beber aquele maldito suco de laranja.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Sobre o outro lado da mitologia

A mitologia romana esqueceu-se de narrar a expressa inveja de certos deuses e a vaidade velada de Februus, ambas despertadas na ocasião em que os humanos, à título de homenagem, designaram ao segundo mês do calendário gregoriano o nome de Fevereiro. Graças à consagração da cultura ocidental intertropical, em eras mais tarde, o período estaria associado a paixões de verão, mar, sol, festividades, preguiça, biquínis, suor, rede e brisa, fazendo todos – inclusive as divindades – esquecerem das chuvas torrenciais e das tardes que teimavam se estender pela noite.

Não se contentou com simbologia das primaveras nas zonas temperadas, e por isso Cupido reivindicou a parte que lhe cabia ao mês. “Tamanha insolência humana, vejam só. Exijo interferência, afinal em tal zona tórrida é estação de inclinação e afetos demasiadamente violentos, e eu sou o diretamente responsável por tudo isto!”. Procurou Júpiter para lhe falar, o qual não deu ouvidos por saber que Cupido era o mestre das malícias e perturbações. Frustrado, o menino alado correu para os braços da mãe Vênus.

Também se consumiu em despeito aquele responsável pela ebriedade e pelos excessos, especialmente os sexuais. “É um etrusco – exclamou Baco referindo-se à Februus, numa tentativa de persuadir uma intervenção de Júpiter – a loucura se apossou dos romanos. Vê-se por meio de tremendo paradoxo. Entregaram-se ao cristianismo, mas prestam homenagens aos deuses pagãos. Se assim o é, então que sejam ídolos mitológicos clássicos!” E diante de tanta picuinha ufanista, o deus dos deuses desejou que Baco jamais tivesse saído da barriga da sua perna.

Logo, o insatisfeito Cupido pediu ajuda ao seu grande amigo Zéfiro, o vento do oeste, para que assim espalhasse infâmias acerca do rei dos deuses, e o contrariado Baco fez murchar todas as videiras, o que causou abstinência no panteão, algo que afetou o próprio Júpiter. Cansado da cisma, convocou assembléia geral extraordinária, onde explicou os motivos para a não intromissão.

“Caros, se a questão é coerência, nada mais justo que seja concedido à Februus tal homenagem”

Zunzunzuns.

"Calados! Calados! – bradou Júpiter – Para os humanos, este é o período do 'adeus à carne', como vocês sabem, tal temporada também é conhecida por Carnaval. Por analogia, esta despedida pode ser considerada como a morte, bem como a purificação na quaresma. Não precisa explicitar quais os desígnios de Februus."

Tão profundo foi o silêncio, que o barulho do sorriso mudo de Februus se tornou um brado, a sua única manifestação perante toda a confusão.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Sobre vias expressas

Ninguém sabe precisar exatamente quando a primeira espécime surgiu, mas estimam que tenha sido junto com o aparecimento das cidades, que remete ao período longínquo da Antiguidade. De acordo com Clístenes de La Calle (professor adjunto da Universidade Livre de Bayeux, o qual integra uma vertente progressista de historiadores e ensina a disciplina “Arqueologia Urbana II” na instituição supracitada), as primeiras ruas passaram a existir há mais de dez mil anos.

Resgate Constantinopla ou vá à Paris, não importa, é certo que as ruas também falam suas próprias línguas e que seu léxico varia conforme o período do dia. Pela manhã são buzinas, cantadas baratas sem critério, auto-falantes, anunciadores de gás, alho, cebola, ou qualquer outro condimento que você não entende no primeiro grito do vendedor. À noite exprimem-se por meio de vidros que quebram, vozes sem donos com seus tons ébrios, miados, latidos, caminhões de lixo, gemidos, gritos, grilos.

As ruas igualmente se personificam. E segundo a vivência de seus usuários, elas poderiam metamorfosear-se em diferentes cores e contornos, travestidos em personalidade. Boas ou más.
Com fins didáticos para a sua matéria, o prof. Dr. Clístenes de La Calle em sua aula inaugural de cada semestre, solicitava sempre aos alunos que estes atribuíssem vida às ruas de sua experiência. Apesar da repetição da tarefa, o professor sempre se surpreendia com o produto dos seus estudantes. O trecho abaixo, a título de exemplo, contém parte do relato de N.F.D.A., aluna da turma de 2003.

“(...)
As de São Paulo, estranhas mulheres de constante flerte. Putas de histórias engraçadas que gostaria sempre de observar sem me envolver.
As de Curitiba, crianças quase puras, infantes quase inocentes, como sonhos e planos de uma vida futura.
As de Brasília, belas madrastas sadistas, das oportunidades perdidas, que roubam sem o mínimo pudor o doce de seus enteados.
As de Campina Grande, tão maternais como um berço. O braço e acalanto certo para qualquer tormento.
As de João Pessoa, melhores amigas a guardarem os maiores segredos de primeiras experiências, aquelas que me fizeram atingir o pleno sentido da palavra liberdade. “

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Sobre guerras e relações humanas

Um sobrenome se torna alcunha própria facilmente, e o seu era Barbosa, cujo comportamento servia de instrumento nemésico para a humanidade – do seu bairro. Pelejava verbalmente contra todos, e fazia-os de inimigos diários, os quais eram facilmente vencidos pela impaciência e aflição argumentativa. As batalhas versavam desde os assuntos mais simples, como o clima, até os mais complexos, como a conjuntura política na Polinésia, ou pretensos plágios cristãos de religiões mais antigas.

Passava o dia na rua – o motivo Barbosa jamais confessaria – mas o campo de batalha que mais temia era a casa. A grande afronta era a presença estúpida da mulher. Trinta e oito anos de luta cotidiana. O que fazia de Carmelita sua rival mais ameaçadora era a lealdade submissa e o despojo de amor-próprio, qualidades que nenhum outro adversário possuía. A este caso se aplica uma citação de William G. McAdoo, sobre a impossibilidade de vencer um ignorante com o artifício da argumentação.

Escutava corriqueiramente da esposa “Por deus, você enlouqueceu”, ao que era trivial responder “Deus não existe”, ao passo que a casa era tomada por velas de sétimo dia.
Por mais que procurasse mangas para degustação, após o leite quente das 20:30h, não as encontraria até o raiar do outro dia.
Décadas atrás, no auge do seu vigor, Barbosa era privado do coito durante 5 dias mensais. Mulheres sabem como fechar as pernas. Agora, com a presença da menopausa feminil, ironicamente a força e freqüência sexual declinaram.
Carmelita tomava a mão do marido e a batia forçosamente contra a madeira três vezes, toda vez que o último professava ironicamente uma catástrofe.

O casal sempre suscitou minha curiosidade, e desde que os conheci, duas perguntas passaram a martelar na cabeça. Versavam basicamente sobre os motivos do matrimônio e as razões para a não ocorrência de uma potencial separação. A primeira foi fácil de acertar. Em sua juventude, soube que Carmelita fora a mais bonita do bairro. A Beleza, mesmo se constituindo como atributo de fácil e rápida desmistificação, sempre veio antes da Inteligência.
Quanto à separação nunca ter ocorrido, pressuponho três hipóteses: primeira, o fato de Barbosa pertencer a uma época em que a máxima “até que a morte os separe” se aplicava em forma de axioma aos casamentos. Apesar do seu gênio, não se enganem, sabia muito bem honrar seus votos; segunda, o amor sobrevém a paixão, os quais muitos dizem se tratar de conformação; terceira – a mais absurda, porém incrível de todas – apesar da sua aparente ignorância intelectual, um mero disfarce, Carmelita era a mais sábia entre todos.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Sobre a arqueologia cíclica das relações afetivas

Mamãe conheceu papai por causa do clima e de um defunto. “Tá quente aqui, né?” A pergunta clássica para quebrar silêncios nem sempre constrangedores. Não aconteceu em um elevador. Foi no cartório. 17/10/1971. 15:51h. Ela datilografava. Ele cuidava do óbito do bisavô. Não fumavam, mas saíram para tragar um Marlboro. Depois, um café. Em seguida, um cinema, mas não viram o filme. Este acabou e tomaram seu rumo, com a promessa de se encontrarem outro dia, o qual chegou, que foi certa tarde de domingo, e acabou, e tornaram a prometer e encontrar, prometer e encontrar.

Mamãe engravidou e casou. Nessa ordem. Ao som de Song Sung Blue e a marcha de Mendelssohn da suíte de Sonho de uma Noite de Verão. Respectivamente. Papai fecundou-a em Fevereiro. As bodas foram em Junho. Julho, Agosto, Setembro, Outubro, Novembro e nasceu Alceu. Na seqüência, os gêmeos Olavo e Orestes. E àquela época, os casais já não tinham filhos em número de dois dígitos. Como última tentativa, planejaram o derradeiro rebento, na esperança de nascer uma menina, desejo de mamãe. Mas eu nasci. E me chamaram de Benedito.

Mamãe não me odiou por frustrá-la. Muito pelo contrário, a todos parecia que sua preferência recaía sobre mim. “Amo-os da mesma forma”, dizia ela, me entregando sempre o melhor e maior pedaço das guloseimas, mimando-me gratuitamente, defendendo-me das investidas dos irmãos mais velhos, ou de qualquer um que ousasse encostar as “patinhas” em mim. Obviamente os comentários, por vezes, tomavam rumos e tons maldosos. “O menino é estranho”, “É o jeito que a mãe o trata”, "É a filha que não teve". Isto tudo apenas porque preferia ficar junto à mamãe e entre outros seres do sexo feminino, ou na companhia de um livro, ao invés de me entregar aos jogos e esportes. Mas enfim, com o passar do tempo aprendi a assumir que as atividades desportivas não me apeteciam e declarar que tudo o que envolvia o intelecto era incrivelmente mais encantador. Dos mimos de mamãe herdei a inclinação por querer sempre tudo do melhor: comida, roupas, companhias. Fui o único, entre os irmãos, a ter um curso superior. Medicina.

Eu conheci Heitor por causa do clima e de um defunto. Meu pai morreu, e para agradar mamãe (eu era o único a morar sob o mesmo teto que ela, ainda) fui tomar as providências cabíveis. “Está quente. E o crepe, sendo um tecido muito leve, é totalmente adequado para o trabalho formal. Bela camisa!”. Ele datilografava, e interrompeu o processo para me olhar. A eternidade durou 4 segundos. Esbocei um sorriso, o qual foi retribuído. Ele fumava, e aquela foi a minha segunda experiência com cigarros. E a terceira, dentro de um quarto pago e barato. Ao final do maço, tomamos nosso rumo, com a promessa de nos encontrarmos outro dia, o qual chegou, que foi certa tarde de domingo, e acabou, e tornamos a prometer e encontrar, prometer e encontrar...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sobre o grande dia daquele cara

É. Já o vi por aí. Não recordo exatamente onde. Poderia ter sido em qualquer lugar que freqüento; sempre os mesmos, vale ressaltar. Aquele bar no centro, há outro na orla, e a universidade, sem contar algumas festas pessoais invadidas por penetras, que são quase como se fossem realmente convidados.

Eu diria que é um tipinho bem peculiar, com uns cabelos castanhos queimados do sol, a pele idem (desconfio que seria branco, se morasse mais ao sul), e olhos de cor indefinida entre o verde e o castanho. O esquerdo, às vezes, ficava um pouco estrábico. Nariz levemente torto e adunco – diziam que era seu charme. Lábios finos, no entanto bem desenhados. Magro, com definição muscular. Fazia certo sucesso entre as garotas. Estava sempre a sorrir, raramente viam-no sério. Usuário semanal de cânhamo, assim como a maioria dos seus amigos. Tinha a mania de falar utilizando o plural em substantivos que deveriam estar no singular. Diziam que vinha de berço de ouro. Aparentemente tentava ocultar tal informação a todo custo. Acredito que fosse motivo de grande embaraço para ele, visto que tentava demonstrar desprendimento para com o materialismo mundano. Nascera para abismar, bem ou mal, em instâncias mínimas e com pequenos atos, pessoas que estavam além do seu círculo de amizades (e ao usar adjetivos de proporção, penso na sua relatividade). Parece que temos amigos, colegas, ou conhecidos em comum, o que não é grande coisa, uma vez que vivemos numa cidade de abrangência mediana. Em lugares assim, principalmente nesta região do país, você inevitavelmente fica sabendo de pequenos grandes feitos e fatos dos colegas que são amigos do conhecido do seu vizinho.

O que vou relatar aconteceu antes da minha ida definitiva à Leeds. Lembro que eu residia na zona leste da cidade, área nobre, Rua Albertino Alfredo, casa grande, muro alto, jardim extenso e convidativo para festas que nunca aconteceram ali.

Houve um dia em que ele saiu na sua bicicleta azul celeste (se locomovia sempre assim, grande feito para alguém que vivia numa cidade com um litoral de cerca de 24 quilômetros de extensão e temperaturas médias anuais de 26 °C) para ir uma festa que começaria no Centro Acadêmico da universidade, e se estenderia à casa de M.P.E. (sim, ela possuía três nomes próprios). Muitos relatam que o viram no Centro Acadêmico, em seu estado sempre aparente de alteração das faculdades mentais. Todavia, não compareceu para a festa na casa de M.P.E., o que a deixou muito desapontada. Assim como a maioria das estudantes da área de humanas, M.P.E. estava interessada no rapaz e creio que havia uma movimentação afetiva que estaria para ocorrer na tal festa. Enfim, sumiu por aquela noite e madrugada. Não deram muita atenção por se tratar justamente dele.

No dia seguinte, foi noticiado em todos os jornais da cidade que a maior parte das residências localizadas na zona leste havia sido alvo de vandalismo. Eu não precisei deste recurso para tomar conhecimento dos fatos. Acordei com os gritos da minha mãe. Nos muros internos da casa, inúmeros pentagramas vermelhos, pichados com escritos logo abaixo de cada um: Svaboda, Trud, Pobed, Narodn, Zvezda. Mamãe achou tratar-se de algo relacionado à bruxaria ou satanismo, mas logo identifiquei naqueles escritos a língua russa, e nas estrelas a simbologia comunista. Os moradores do bairro acionaram a polícia, que cumpriu seu papel especulativo, mas jamais acharam o responsável.

Contaram-me que quando questionado por seus amigos sobre seu paradeiro na noite anterior, Ernesto (este era seu nome) respondeu: “casas!”

domingo, 8 de agosto de 2010

Sobre compartilhar segredos com velhas loucas

“Até esta hora, tu deverás estar amando”, uma boca desdentada gritou na sua direção, com um dedo enrugado e incisivo a apontar sucessivamente. E assim a amaldiçoou, enquanto a tarde caía junto ao sol. Mas a moça não deu ouvidos, não a conhecia. Tratava-se de uma velha qualquer, uma moradora de rua desvairada. Poderia ser uma cigana dada a misticismos, mas a palavra ceticismo descrevia esta jovem.

Um decêndio passou, deixou sua bolsa cair numa esquina da Rua da Independência, devia ser umas 16:43h, e por causa deste deslize encontrou o homem da sua vida. Grande ironia terem se conhecido num lugar nomeado com sinônimo de liberdade. Não importou o chá pago, a dissertação oral sobre as obras obscuras de Nabokov, coincidentemente escritor preferido de ambos, a crítica implícita à delicadeza da melodia e harmonia de Chopin (compositor favorito dela), ou os cabelos cor de fogo dele, despenteados, e curiosamente odiava ruivos. Nada importou. Estava irremediavelmente apaixonada e não havia escapatória. Entregou-se. Aliás, entregaram-se.

16:51h, e um lustro transcorreu. Juntos, cruzaram a Rua Brigadeiro Agapito Bello com a da Independência. Recostada num canto de muro encontraram a anciã enlouquecida de cinco anos atrás. Reconhecendo-a, lembrou-se imediatamente da praga proferida aos gritos sem dentes. Estancou. O ruivo não entendeu. A moça reagiu enfiando a mão na bolsa e procurando por moedas. Desistiu ao perceber que a velha, apesar de suja, trajava linho e não possuía recipiente para esmolas. A doida apenas sorria imbecilmente, mostrando a gengiva destituída de dentes. Jamais acreditariam na imprecação abençoada, e o significado e sua extensão teriam sentido apenas para uma única pessoa, ela, a moça. Percebeu que a melhor reação seria fazer absolutamente nada e prosseguir o caminho, a vida. A moça decidiu que seria o segredo mais esplêndido da sua existência, e nada mais justo que o fosse compartilhado com aquela desconhecida.